domingo, 3 de novembro de 2013

Liberdade: todos queremos, todos precisamos





"Sei que vocês pensam que eu sou só a velha rainha da farra, mas para sua informação passei 32 anos no exército, á serviço de vossa majestade, a verdadeira rainha. Já estive em ação em 5 campos de batalha, saltei 490 vezes, 23 das quais em solo inimigo. Sou o que vocês colonos chamariam de grande soldado filho da mãe, e que por acaso também é um perito na delicada arte de arranjos de flores japonesas.", depois do post sobre rótulos, hoje me deu um insight sobre liberdade e veio a minha mente essa frase do filme Cruzeiro das Loucas. É a típica situação em que olham alguém como uma única coisa, botando um rótulo e assim tolhem sua liberdade.

Não rotular e ser livre são bem interligados. Quando não se é rotulado, se está livre pra ser o que quiser. Simplesmente livre. É não se regrar nem vive com pé no freio. Ser livre é não se sentir culpado ou constrangido por gostar de algo, é acreditar que é possível ser mais do que se é.

O médico conceituado pode curtir videogames, o advogado tem afinidade com psicologia e animes, o mais super profissional antes do registro tinha uma vida e gostos, alguns dos quais podem sim, ser excêntricos. Não há nada de errado. Tudo começa quando o "não" entra em cena. Daí é "não pode", "não é adequado", "não tem mais idade", enfim, o mundo em volta passa a tolhir a liberdade de um ser. Não é preciso dizer que além de chato é incômodo e desrrespeitoso, principalmente porque em boa parte dessas vezes a intenção não é das melhores. Esta se baseia nas críticas somente, nos olhares de reprimenda e deboche, como se ser algo e mostrar isso fosse algo repugnante.

Martin Luther King disse que tinha o sonho de seus filhos se inserirem na sociedade, fossem julgados pelo caráter e não pela cor da pele e que todos pudessem se dar as mãos como irmãos. Eu interpreto mais além: acredito que só a inserção não é o bastante, é preciso a inserção e olhares dizendo que você é livre para estar onde está. Afinal, inserção por inserção, os negros estavam bastante inseridos em trabalhos subalternos em muitos casos, humilhantes e suportando olhares de: "Você é suportado, não querido". Hoje, eles, assim como todos, tem a liberdade de estar onde quiserem: o maior neurocirurgião do mundo é negro, o presidente da maior potência também e aqui no Brasil, um juiz negro fez todos ficarem de boca aberta e olhos admirados ao combater a corrupção num julgamento histórico.

As mulheres tiveram seus momentos e lutas para chegar a tão sonhada liberdade. Eram olhadas como seres inferiores por homens e aquelas consideradas indignas, assim eram olhadas pelas outras mulheres. O caminho foi árduo e pra vencer os olhares de repreensão foi mais difícil ainda. Com o tempo conquistamos a liberdade de viver a vida como nos der vontade. Ainda há olhares de censura, motivados por uma falta de visão a fatores e pontos que realmente importam tais como caráter. Uma mulher pode transar com um time de futebol antes do casamento, o que não significa que ela será uma esposa infiel. Deve haver a liberdade de escolher o modo como se quer viver a vida e aprender com esse modo. 

Se bem que hoje, apesar da luta e conquista, por vezes noto a inversão dos sentimentos no olhar. Se antes as mulheres eram subestimadas e olhadas como algo inferior, hoje as mesmas mulheres que conseguiram a tão sonhada liberdade e independência, olham como um ser mixo aquela que faz questão de dizer: "Quero uma pessoa e uma casa pra chamar de minhas". Não é regra, muito menos rótulo, porém por vezes noto essa crítica através dos olhares das mais fervorosas.

Ser livre e se sentir assim é o início para mudar o mundo. É dizer não ao não. Quebrar preconceitos. É se perguntar: vai ser sempre assim? Negros com negros, pra não sofrer preconceito e abdicar de alguém que goste por essa pessoa ser diferente? Branquinhos com branquinhos, pra família, amigos e o escambau não falar ou julgar? Adultos não podem mais gostar de desenhos por que não é adequado? E meus caros, isso se aplica também para gordinhos, bulinizados, nerds, deficientes, todos. Cada um no seu quadradinho, sem ousar colocar o pé pra fora, só que todo mundo tem o direito de ficar com quem quiser, fazer o que quiser, se tal for algo bom e fizer bem. É injustiça deixar de ser feliz e estar em paz por picuinhas que não são nem nossas, mas de um mundo que ás vezes é muito do ridículo. Até pra ser feliz, é preciso coragem, é mole?

Claro, que afinidades entre iguais são indiscutíveis e muito acrescentantes, contudo não significa que não possam existir entre diferentes também. Ser igual gera uma convivência mais fácil, ser diferente gera aprendizados e possibilidades. O ideal é saber equilibrar essas duas variáveis.

Ser livre é se ver como multicor, você tem uma cor com a qual se afina mais, contudo tem milhares de outras dentro de você. Ninguém é só uma coisa, há múltiplos lados que se convergem no ponto do seu caráter e no que acredita ser bom. Ser livre é como ver as malabaristas do Cirque du Solei nos lustres subirem e sentir essa sensação de voar alto, girar sem parar e ainda assim poder colocar os pés no chão. Ir num brinquedo de um parque de diversão, ficar de cabeça pra baixo e ao invés de estourar os pulmões só sentir a sensação de como é ver tudo do alto. 

Ser livre é você ter asas pra tocar o céu, mas sem perder a capacidade de nadar bem fundo no oceano.







4 comentários:

  1. Olá. Mais uma vez parabéns pelo texto bem escrito. De fato, se você não precisa se prender a rótulos, então tem liberdade de transcender o seu próprio rótulo. Talvez você se identifique com uma corrente chamada existencialismo. Filósofos dessa linha (como Sartre e Heidegger) falam bastante disso. No meu caso, acabo sempre pensando na questão de destino. Por mais que eu faça escolhas, acho que no fim tudo seria um caminho já predestinado por uma força maior. Mas, de novo, é só minha opinião.

    Continue escrevendo. Ate ^^

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  2. Oi! Bem, obrigada pelo comentário bem escrito. Acho que destino em parte é predestinação mesmo, os fatos que precisam ocorrer para nosso aprendizado, contudo nesse meio há nossas escolhas, o modo como lidamos com isso, caminhos que podemos seguir que nos proporcionem aprendizados prazerosos ou dolorosos. Mas é aquilo, a vida não erra, sempre trabalha pro nosso bem e para nossa felicidade, mas como eu disse até pra isso precisamos ir atrás. Mais uma vez obrigada ^^

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  3. Uau. Profundo mesmo. Nós precisamos parar de viver a vida que os outros querem que a gente viva, e seguir nosso próprio caminho. Criticas sempre terão, mas como diz o ditado: "Se o filho de Deus veio à terra e não agradou a todos, o que dirá de mim?" Sigamos sempre em frente. :-)

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  4. Olá! Muito obrigada pelo comentário! É, críticas sempre existirão, por mais que não queiramos, mas elas são necessárias no fundo para nosso crescimento e exercício da paciência, o que não se pode permitir é que estas influenciem no modo como queremos viver, só nós temos o poder de decidir como queremos conduzir a vida, porque dessa forma, se houver arrependimento ou glória, serão de nossa responsabilidade. Obrigada por ler, isso pra mim é um presente!

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