segunda-feira, 9 de junho de 2014

O amor que a vida dá

"Eu invejo você. Invejo porque até pouco tempo atrás você era pouco mais que uma pedra de mármore, então a vida vai te dar amor, pra que aprenda a valorizar isso. Quantas mulheres não se jogaram nos seus pés dizendo 'Eu te amo?' Você vai aprender a amar, mas eu já sei como é, então a vida vai me fazer aprender a ficar só."

Quando eu disse isso entre lágrimas para meu amigo irmão, havia atingido um dos mais altos níveis de revolta. Era como se velhas concepções infantis viessem a tona e eu mergulhasse de novo nos meus medos adolescentes. No mês dos namorados de 2014, tempos depois de tantos divisores de águas, quis fazer algo diferente e não somente encher tudo de corações. 

O romantismo, namoro, amor, são coisas maravilhosas, lindas, contudo, mesmo quando a adversidade envolve, pode-se tirar grandes aprendizados. E um deles envolve perceber a diferença entre amor e apego. Tal dilema causa muita dor de cabeça. Muito embora não se possa culpar as pessoas por acharem que o amor é estar-permanecer-ficar com alguém 23h por dia, achar que cuidado é impor a presença e diversão só pode ser feita a dois. A razão para isso é simples: as pessoas, em sua maioria esmagadora, ainda não aprenderam que o amor pode também existir na ausência e o mais incrível, permanecer ainda que o ser amado não seja visto.
Esse pensamento a muitos é tão insuportável que mesmo a morte de alguém querido é idéia difícil de ser aceita. Mal sabem que o amor, por mais bonito e verdadeiro que seja, não sobrevive ao apego, pois este o oprime, sufoca o ser amado a tal ponto que já não há mais a leveza de um sentimento bom, mas a prisão de um costume. O apego não é algo que dá muitas concessões. Ele não se importa muito com os "comos". Como a pessoa 'amada' está, como ela está vivendo, como vai a felicidade dela... Ele só quer saber da presença da pessoa ali, independente do estado dela, bem se vê que apego também tem haver com posse. Há uma identificação com tratar o outro como uma propriedade material, você o quer do lado não importa o que aconteça.

E perceber a diferença entre amor e apego é uma libertação necessária, por vezes dolorosa, ao longo do caminho para merecimento do amor verdadeiro. Alguns tem medo da solidão que apegam-se e esquecem que a liberdade é o principal motivador para que o amor volte e se faça permanecer. Prender achando que se está dando tudo o que o outro precisa e não receber de volta o esperado gera muita revolta e dor, especialmente se a intenção é diferente.
Os apegados são as pessoas que precisam mais de amor porém os que precisam aprender como ele age e funciona. Em épocas mais apegada eu observava as pessoas livres. Os que viviam o amor livremente, que não procuravam, que pareciam não estar ligando e sempre recebiam algo bom de volta, nunca ficavam sós. A revolta e raiva se apoderavam de mim. "Faço tudo, me importo, ligo, tento ajudar e vejo as pessoas que não estão nem aí, nunca quiseram, terem tudo. Deus definitivamente dá nozes pra quem não tem dentes." Porém percebi que não era por acaso, ainda que me perguntasse qual o truque, o macete, o caminho, a macumba, não adiantava, porque nada disso existe. As nozes pra quem não tinha dentes eram, na verdade, um modo de se aprender outras formas de quebrar a casca.
E percebi, nesse momento, que a revolta e tudo o mais era inútil. Quando somos jovens, não jovens de idade, mas jovens de amadurecimento, sentimos inveja. Uma inveja que não tem base no mal, na vontade de prejudicar o outro, mas no pesar de querer algo que não é possível no momento, a qual desejamos muito e o outro tem. Depois que amadurecemos, a inveja torna-se admiração. Olhamos o outro e o tomamos como exemplo, percebemos suas qualidades e o quanto elas fazem o outro merecedor do que possui. Passamos a admirar e com isso, vem junto a esperança.

Afinal, ao ver a felicidade do outro notamos que podemos ser felizes também e com isso, nos trabalhamos para tal

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