segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Elite: o que é



Noites de domingo normalmente são sem nenhuma emoção, um marasmo sem grandes novidades, porém excepcionalmente nesta noite eu estava trabalhando, logo era algo bem diferente do que normalmente costumo viver nas outras noites.

E como noite de domingo, não se tem nada muito legal pra ver na televisão após aquele horário em que você já termina suas tarefas, só que por falta de opção ou por indiferença do resto, acabou que a televisão ficou ligada no Canal 07 e acabei vendo o Big Brother Brasil. Parece que domingo é o dia da formação do chamado paredão, pra eliminar alguém. Eu não assisto o programa, salvo comerciais eu nem saberia o nome de ninguém, os que normalmente se destacam por determinada conduta ou por uma polêmica.

E desta vez, quem foi uma moça chamada Ana Paula, que pelo visto gera polêmica, não tem medo de falar na cara, ainda que gere barraco, ela não tem medo de abrir a boca. Eu sempre fui da política de que pra falar as coisas tem que ter jeito, mas verdade não muda independente de você falar agressivamente ou com jeitinho. Ela está ali, pra todo mundo ver, você querendo suavizá-la ou não. Verdade é verdade, mesmo que você tente mentir. E o que eu vi depois de formado o tal paredão foi um barraco com troca de ofensa, mas que acendeu uma coisa na minha cabeça.

O participante Renan, que indicou Ana Paula, afirmou que o fazia com motivo, pois segundo ele, ela teria chamado-o de "lixo" e "nada", no que segundo notícias foi uma briga na qual pairou até suspeita de agressão física. O mesmo participante começou a chamar Ana Paula de "patricinha", dizendo: "você não trabalha, eu tenho braços, trabalho desde os meus 18 anos. Ninguém gosta de você". Ana Paula, por sua vez disse: "Ter dinheiro não é crime. No que isso incomoda sua vida?". E aí, comecei a pensar: ter dinheiro e uma condição boa virou mesmo motivo de ofensa?

Acredito que muitas discussões nas quais presenciei e participei já haviam plantado essa sementinha em mim. A palavra "elite" em muitas dessas discussões era usada com desdém, despeito, aversão, quase como se fosse uma lepra em tempos bíblicos. E ao falarem assim, dava a entender que elite era algum tipo de ET fora do normal, pessoas que viviam em um mundo totalmente diferente ou numa altura tão inalcançável que sequer se podia vê-las. Restava a questão: Elite, quem são? Onde vivem?O que fazem?

Sei que o fundo da briga está na briga (birra) de classes. Rotularam o que parece ser elite e pra quem se encaixa nesse rótulo, é direcionada a crítica. Não raro se escutar: "Queremos mais povo nas universidades públicas", como se o que chamam de elite fosse uma população vinda de outra dimensão e não tivesse ou não precisasse também lutar por algo. Afinal, classificaram elite como pessoas com boa condição financeira, pessoas que podem pagar boas escolas, que viajam, possuem boas roupas ou vão a bons restaurantes. Só que não.

A minha experiência pessoal mostrou que essa crítica pode ser bem mais acentuada do que se pensa. A ponto de não analisarem muito bem os outros fatores por trás do que tão duramente criticam. "A elite paga boas escolas e por isso tem mais chances de entrar em universidades". Conheci pessoas que estudaram em escolas chamadas "de elite" e eram bolsistas, filhas dos funcionários ou ex-alunos, uma delas, grande amiga minha, passou em medicina numa federal, atualmente residente, ambiciona ser endocrinologista, outros conhecidos eram filhos de pessoas importantes, mal concluíram o ensino médio ou conseguiram uma vaga em universidade boa. Recentemente esse argumento caiu por terra quando se publicou uma pesquisa afirmando que a maioria dos alunos na pública estadual vinham de escola pública.

"A elite frequenta lugares de luxo e compra coisas caras". Com você economizando ou parcelando em 10 vezes sem juros, pode sim ir aquele restaurante top, ou viajar para o exterior ou comprar aquela blusa anunciada pela Gisele Bündchen. Ter tais coisas ou não ter, vai muito de sua vontade e consciência acima de tudo. Já comi sim em lugares caros, mas também naquele sandubão da esquina. Tenho coisas que comprei em brechós virtuais, mas também aquelas roupas de grife. A questão é: E daí?

Elite branca européia sofre preconceito aqui
O maior problema é o preconceito em torno do que e de quem denominam de elite. E não me venham dizer que "isso non ecziste" porque existe sim. Segundo significados.com, preconceito é um juízo pré-concebido, que se manifesta em uma atitude discriminatória perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento, é uma idéia formada antecipadamente. Também podendo ser resultado de frustrações que são transformadas em raiva e hostilidade. Bingo! Daí vem o tom de desdém, os olhares tortos e por que não dizer, despeito.

Voltando ao caso de Ana Paula, não concordo com o jeito meio escrachado e grosseiro, porém algo deveria fazer com que se ficasse do lado dela: ela não tem culpa de ter uma boa situação. O preconceito é algo muito de tempo presente. Renan olhou pra Ana Paula, soube que ela tinha boa condição financeira e já a rotulou de "não trabalha", "patricinha", "compra tudo", "teve tudo na mão", não parou um instante para pensar que ela tem porque talvez alguém antes dela quis ter e lutou pra isso. Ela pode ter coisas boas hoje, porém seus pais podem não ter tido e podem ter pensado: não quero isso para meus filhos, então lutarei para que eles não passem necessidade. Quantos filhos vítimas desse rótulo de "elite" não tiveram pais que passaram fome, que capinaram em roças, que tiveram dificuldades mas que foram atrás para que seus filhos não passassem pelo mesmo? E mais ainda, mesmo dando o que não tiveram, passaram também os valores de valorizar o que tem e valorizar mais ainda o trabalho duro? Isso o preconceito inicial não enxerga.

E como Ana Paula é um exemplo disso, me sinto empática com ela nesse sentido. Ela não tem culpa de ter determinada situação de vida, como ela mesma disse: "Não é crime não ser pobre", ou se não quiser a palavra literal, não é crime não viver argolado em dívidas e poder se dar alguns luxos, porém isso incomoda as pessoas. Uma vez que passei por esse tipo de coisa e nem era elite como achavam que eu era, além de ver colegas meus também vivendo isso, seja por gostos pessoais, por onde estudavam ou onde moravam. Já sabem que estudei em escola boa, mas houve quem dissesse "escola de elite", porém retorna ao que eu disse antes: nem todo mundo era filho de dono de madeireira. Acho que não posso citar melhor exemplo do que uma situação que vivi recentemente mas que teve seu início lá na universidade. Um relacionamento breve com um rapaz não trouxe somente dissabores, mas também o contato com esse tipo de preconceito.

Minha maior falha ao que parecia, era ter uma família. E uma família que me dava condições, dentro das possibilidades, de estudar e crescer. O rapaz criticava a proteção, mesmo sabendo que eu era menor de idade. Criticava os gostos da minha mãe, chamava ela de "branquela fresca" porque ela gostava de bacalhau ao invés de churrasco (o.O, oi?), me alfinetou por causa de suposta quantia que eu levava pra universidade, mesmo sabendo que era para uma semana inteira. E recentemente inventou mentiras sobre coisas que ele distorceu ou supôs que tinham acontecido. Muito engraçado alguém falar desse jeito tão desprezível sobre o que ele julga ser "elite" quando já teve atitudes muito mais "elitistas" do que eu. Porque meus pais nunca me deram dinheiro pra pagar rodadas de pizza para os amigos. Na verdade, nunca me davam dinheiro de graça, ao contrário, me faziam valorizar o que tinha e correr atrás do que eu queria, foram valores passados a mim desde pequena, para que eu não virasse um ser humano frustrado e cheio de despeito caso perdesse determinada condição favorável ou não alcançasse determinada coisa, como aconteceu com o senhor aqui referido.

Elite na verdade pode envolver a questão da renda, mas envolve maior parte do caráter e do quanto você envolve as pessoas com ele. Logo, muitas pessoas podem sim, ter uma condição financeira boa, mas ter um caráter tão pueril e obscuro, que nem cobertas de ouro se tornam melhores. Alguém que "é povo", pode achar que essa característica por si só lhe enobrece ou honra porém suas atitudes mesquinhas só denotam orgulho e desrespeito. Agora, o bom caráter, respeito ao próximo, humildade são coisas que enobrecem e elitizam qualquer ser humano, não importando quanto ele tenha na conta bancária ou onde more, o que faça ou que aparência tenha. Afinal, suas atitudes alcançam mais pessoas através do exemplo do que você poderia ajudar com finanças, as primeiras formam uma rede, a segunda é limitada. Obama é a nata do que pode ser considerado elite e ainda assim, não é arrogante, mostra aos filhos o valor do trabalho duro e não dá favorecimento a nenhum deles. Esse é o exemplo de elite que abrange as pessoas.

O preconceito como um todo é algo que se deve combater. Não importa se é um "típico" ou não, ele por si só denota incapacidade do ser humano em lidar com as diferenças. E é curioso que no nosso país, muitos queiram tão arduamente que se lide melhor com elas, mas em contrapartida, também as usem para atacar. Talvez a idéia que Renan tenha de Ana Paula reforce muito isso. Ao querer criticar seu jeito e personalidade, atacou algo que está fora do alcance dela, que já estava ali muito antes dela nascer mas que ele quis transformar em um defeito. Diga não a esse tipo de atitude. E definitivamente, não sigam o exemplo de Renan e de outros citados aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário